A história

20 ANOS DE K-POP

Imagine um país no Leste Asiático. Agora imagine a indústria musical deste país baseada em música folclórica tradicional, baladas românticas e hits enaltecendo o caráter patriótico da população. Um dia, neste mesmo país, a TV exibe a apresentação de três rapazes com roupas modernas, beats que misturam o hip-hop com dance music e combinam tudo isso com coreografias elaboradas. O choque cultural foi tanto que o grupo Seo Taiji & Boys foi amplamente questionado e analisado pela mídia e público. Mal sabiam eles que estavam testemunhando uma virada essencial para a cultura coreana. Ali nascia o K-Pop.

Apesar do nome K-Pop designar a música pop coreana atual, as canções populares do país são datadas desde o fim do século XIX, começando por produções que tinham o intuito de restaurar o sentimento de dignidade de um povo que sofria forte influência de culturas de países vizinhos. E, ao longo dos anos, essas influências sobre produtos culturais se perpetuou: do blues ao rock, do folk às baladas românticas; a música pop coreana sempre soube adaptar as influências internacionais para o mercado e produção interna.

 

Com o grupo, composto por Seo Taiji, Yang Hyunsuk e Lee Juno, não foi diferente. Seo Taiji & Boys trazia para o indústria fonográfica sul-coreana algo que fora do país já era comum, especialmente no ocidente, que durante a década de 90 conhecia o auge de boy bands e girl bands. O primeiro boy group de K-Pop conquistou rapidamente a admiração dos jovens, que se viam refletidos nas letras das músicas - algo que vem se repetindo atualmente, em especial com o grupo BTS - e enxergavam neles um novo estilo de vida.


 

 



O sucesso do trio ajudou a concretizar, na Coreia do Sul, o conceito de cultura como mercadoria com potencial de exportação. Lee SooMan, cantor e CEO de uma das maiores empresas de entretenimento do país atualmente (S.M. Entertainment), investiu na ideia. O resultado foi o primeiro grupo de ídolos: H.O.T. Assim como Seo Taiji & Boys, o grupo conquistou a audiência e fertilizou o solo para que novos grupos fossem criados.

Com o início e crescimento de uma verdadeira indústria, outras empresas foram aparecendo, mas todas seguindo a mesma fórmula para formação de artistas e grupos. Os potenciais candidatos, chamados trainees, praticavam dança, canto e atuação por alguns anos e, no caso dos grupos, eram combinados com outros trainees para que formassem um conjunto o mais harmonioso possível, onde cada um pudesse assumir um dos papeis pré-estabelecidos pela fórmula: cantor, rapper, dançarino, maknae (pessoa mais nova do grupo) e visual do grupo. 

               
                Novas tecnologias, novos mercados

 

Se durante os anos 90, o pop coreano virou febre em parâmetro nacional, aos poucos o alcance aumentava. Os artistas sul-coreanos, durante a primeira década dos anos 2000 encontraram oportunidades de expandir seus trabalhos pela ásia: no Japão, cantando temas de animes e dramas, como no caso da solista BoA; na China, como o grupo Super Junior - M, parte do grupo Super Junior, dedicada especificamente para o mercado chinês e com músicas em mandarim; e até mesmo nos Estados Unidos, onde o girl group Wonder Girls chegou a fazer uma turnê com o trio Jonas Brothers, em 2009 - tudo isso acompanhado pela expansão onda Hallyu como um todo, incluindo a popularização de produções audiovisuais. 


 

Esse crescimento e o alcance mundial só foram capazes de ocorrer com o auxílio da internet, em especial do Youtube. Considerando que os clipes de K-Pop são um dos grandes diferenciais do gênero, as produções de alta qualidade conseguiram um alcance mundial através da plataforma de vídeos, conquistando  uma legião de fãs.

 

O apelo visual, presente nos clipes e coreografias dos grupos, definitivamente é um fator importante para o encantamento dos fãs, mas a música ainda é o núcleo de tudo isso. E os coreanos souberam como adaptar seu produto para um mercado globalizado. O K-Pop, além de se moldar facilmente às tendências musicais de cada época, carrega sempre em suas letras algumas palavras em inglês, tornando a música mais acessível para aqueles que não tem familiaridade com o idioma do país - apesar disso, para os fãs  a música é uma linguagem universal, sem barreiras de idioma; o fato de entender ou não a língua na qual a música é interpretada, é irrelevante. O importante é como ela te toca e faz sentir.

 

Com o aumento do consumo em nível global, cresceram também o número de empresas investindo na fórmula do K-Pop e, consequentemente, o número de grupos. Por mais de dez anos, o cenário pop coreano se concentrou no conjunto carisma do artista, clipes bem produzidos, hits chiclete e coreografias tanto com alto nível de dificuldade quanto com passos fáceis para qualquer pessoa aprender e reproduzir. Diversos grupos cresceram com isso e alguns viralizaram em grande escala. Pelo menos até “Gangnam Style” acontecer.

 

A música, lançada em 2012, trouxe tudo o que atraía os fãs de K-Pop nos últimos anos e levou até as massas. Neste momento não apenas os interessados na cultura do país entraram em contato com a música. Os elementos visuais apelativos e curiosos, a coreografia engraçada e a música pop grudenta caíram nas graças do público mainstream, que levou o hit a ser o primeiro vídeo na história do Youtube a alcançar a marca de mais de 2 bilhões de visualizações - inclusive sendo o motivo para que a plataforma, que até então não contabilizava além deste número, mudasse seus algoritmos.

 


 



 

                 K-Pop em escala global

 

Desde então, o K-Pop, diversos grupos e artistas do gênero vem quebrando as barreiras impostas pelo mercado musical norte-americano, acostumado em reinar absoluto e mundialmente. Atualmente, o que mais vem ganhando atenção do público é o fenômeno BTS. O grupo, formado por sete jovens, estreou em 2013 e desde então vem criando uma mudança na indústria. O septeto é agenciado por uma empresa de pouca tradição no mercado, por isso a amplitude do sucesso era pouco esperada. Quando perguntados sobre o motivo dessa popularidade, os próprios integrantes apontam para o fato de abordarem a vida dos jovens em suas músicas, mostrando que uma das principais razões para o nascimento de toda a indústria do K-Pop, trabalhada por Seo Taiji & Boys, havia sido negligenciada ao longo dos anos.

 

A retomada deste fator mostra a necessidade do público em se reconhecer nas músicas. Não é como se outros grupos de K-Pop não abordassem esses assuntos durante os últimos vinte anos, mas ao longo desse período a abordagem deixou de ser uma prioridade.

 

Atualmente, um novo elemento também tornou-se relevante para os fãs: o envolvimento do artista com o processo de produção musical. Não apenas a identificação com as letras é importante, se valoriza muito mais as músicas que são escritas e produzidas por integrantes do grupo. Na nova geração de artistas (que estrearam entre 2013 e 2017), por exemplo, é difícil encontrar um grupo, de grande reconhecimento, no qual pelo menos um dos integrantes não participe deste processo. Além de ser um aspecto que aumenta a atenção do público para grupos que se comprometem com esse tipo de trabalho, foi um dos fatores que também elevou o BTS ao mais alto nível de alcance mundial por artistas sul-coreanos depois de Psy.

 


 


 



 



Quase 18 mil km que separam o Brasil de toda a ferveção cultural que vem acontecendo na Coreia do Sul - apesar disso o K-Pop movimenta centenas de fãs por nosso país. E, se baseando nas dimensões que o gênero vem tomando no estado do Rio de Janeiro, que este trabalho se desenvolveu. Como uma música vinda de tão longe pode ter tamanho impacto em um conjunto cultural tão diferente? Analisemos os diversos aspectos do fandom de K-Pop do Rio de Janeiro.

 

           A expansão no Brasil

Apesar do reconhecimento do público geral ter acontecido em 2012, com o hit “Oppa Gangnam Style”, o K-Pop já vinha se popularizando entre os jovens brasileiros há alguns anos. O gênero, que ganhou espaço através da internet, já reunia um pequeno grupo de fãs entre os anos de 2008 e 2009. Parte deles, já familiarizado com a cultura do leste asiático, chegava até as músicas e produções sul-coreanas através da proximidade com a cultura japonesa.

 

Segundo esses fãs, inicialmente, além de menor, a comunidade era bem menos concentrada. Os poucos K-Poppers da época se espalhavam por todo o país, nem sempre tendo alguém do mesmo estado ou cidade que dividisse o gosto pelo gênero musical; o que ajudou a fortalecer o ambiente online como primeiro espaço de encontro entre os fãs.

E se no fim da década de 2000 o Youtube foi a principal plataforma a auxiliar a internacionalização do K-Pop, nos anos seguintes, a criação de novos meios de propagação também exerceram e exercem um papel importante. Atualmente, a Coreia do Sul tem seus próprios serviços de streaming de música e vídeo, facilitando o acesso para o público internacional. Antes disso, os fãs não tinham muita escolha: “só dava pra ter acesso aos singles, eps e álbuns através de sites que pirateavam as músicas, não havia streaming tal qual Spotify”, explica Letícia, que está no meio desde 2009.

“Não havia programas específicos dos artistas, transmissões ao vivo e até mesmo contas oficiais exclusivas para os grupos não eram feitas; apenas os perfis das empresas compartilhavam notícias de seus atos e, claro, nenhuma contava com tradução para o inglês”, conta André. “Os grupos não eram tão familiarizados com o ocidente”, aponta Johany para a via de mão dupla que era a dificuldade de acesso.

Para o jornalista José Norberto Flesch, editor de Diversão & Arte do jornal Destak – e conhecido por trazer as boas novas para fãs de diversos gêneros musicais, incluindo as vindas de artistas sul-coreanos para o Brasil – essa evolução não é uma tendência exclusivamente brasileira: “esse crescimento é mundial, visto até mesmo nos Estados Unidos”.

Segundo Flesch, a dimensão do K-Pop no país se assemelha à um gênero distante do pop-chiclete adorado pelos fãs brasileiros: “quando comecei a cobrir shows internacionais, o heavy metal era bem forte. Até continua, porém a curva de ascensão do K-Pop tem me impressionado mais”, conta.

© 2018 - Por Beatriz Filippo. Criado com Wix.com e Maria Cecília
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