O mercado

DE K-POPPER
PARA K-POPPER

Fotos, acessórios, camisas, pôsters e os mais curiosos produtos adornam as cangas estendidas sobre o gramado da Quinta da Boa Vista: todos estampados com rostos asiáticos e nomes que, para os desavisados, pode não fazer o menor sentido. Mas para os K-Poppers são motivo de adoração. A atividade nasceu e cresceu nos encontros de fãs de K-Pop e, atualmente, se tornou um verdadeiro mercado de nicho.

 

O K-Pop em si é um gênero onde o consumo ocupa uma posição de destaque. Além do consumo midiático, as empresas que gerenciam os grupos de K-Pop investem em produtos atrativos para os fãs. Os CDs que, com o crescimento da música em plataformas virtuais, perderam a característica de um grande comércio, no K-Pop parecem crescer. Isso porque os álbuns vão além do conjunto capa de acrílico, disco e encarte. Grande parte dos CDs de K-Pop vem acompanhados de um livro de fotos exclusivas do artista, designs criativos e brindes também exclusivos para os que adquirem. E, considerando esse combo, o produto faz jus à média de valor pelo qual é vendido: de R$ 60 a R$ 100.

 

Além dos CDs, pôsters, produtos de beleza, roupas, acessórios de moda e papelaria temáticos de grupos de K-Pop também são amplamente comercializados na Coreia do Sul. Para adquiri-los, porém, não apenas é necessário ter certo poder aquisitivo, como também cartões de crédito internacionais. É nessa brecha, onde existe a dificuldade para a aquisição desses produtos e a demora na importação, que as lojas brasileiras se encaixam. Trazendo um estoque de produtos majoritariamente fan made - feitos pelos próprios fãs - e a pronta entrega, os jovens empreendedores de K-Pop se tornaram presença confirmada nos eventos.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entre os produtos mais vendidos estão: fotos em formato polaroid, pôsters, e bottoms 
 

Eric Melo, da equipe Meet K-Pop, organizadora de eventos sobre cultura coreana, conta que quando começou a frequentar esse tipo de encontro, por volta de 2013, a quantidade de lojas era quase nula, e reconhece a importância dessa mudança: “a gente está fomentando um mercado, criando espaço para as pessoas conseguirem seu próprio lucro”.

 

A política de participação das lojas nos encontros varia de acordo com cada organização. Em eventos abertos é comum que cada loja doe um de seus produtos para que sirvam como prêmio para as competições que acontecem ao longo do dia. Em troca, geralmente, as lojas ganham divulgação prévia no evento no Facebook. Dessa forma o público já toma conhecimento do que será vendido no evento e da quantia média de dinheiro que deve levar.  

 

Já para eventos fechados, como festas e competições de cover, é comum se cobrar uma taxa, normalmente entre R$ 50 e R$ 150 - dependendo da magnitude do evento e dos produtos comercializados por cada lojista.
 


Os eventos recebem lojas que comercializam de petiscos tradicionais a artigos de papelaria

 

Em pesquisa divulgada no grupo de Whatsapp, que reúne parte desses lojistas, revelou-se que 75% dos participantes tem a atividade como única fonte de renda, gerando um lucro de em média R$ 200.

 

Apesar de concorrentes, os vendedores costumam manter uma boa convivência. “Acabo fazendo amizades [com os outros lojistas] e isso não interfere nos negócios. Tenho a consciência que cada um ali tem seu espaço e clientela”, explica Kamila Otaviano, da loja Hit The Lotto. Além disso, o fato de estarem nesses eventos para vender, não os impede de consumir: 100% dos participantes da pesquisa afirmaram que também consomem nas lojas vizinhas, principalmente por verem nelas produtos que não tenham na própria loja.

 

As lojas, no entanto, não são a única forma de mercado que vem se desenvolvendo no Rio de Janeiro. Para além de eventos fechados, idealizados e organizados por produtoras de eventos, a culinária e o idioma também entram no interesse do público K-Popper - e até além dele.

 

 

            Outros rumos
 

Seguindo a crescente no comércio voltado para o público K-Popper, em 2017 foi inaugurado o primeiro restaurante de culinária coreana do Rio de Janeiro, o Hanguk House. Sr. Kim, o responsável pelo estabelecimento, contou que a iniciativa surgiu justamente da carência no mercado.

Os Jogos Olímpicos de 2016 foram decisivos para dimensionar o potencial do empreendimento, considerando principalmente o próprio público coreano: “a pessoa não pode comer feijão e arroz todo dia, não vai conseguir. Tem que comer comida coreana, que é o que estão acostumados”, conta Sr. Kim. Durante os jogos, ele fechou uma parceria com uma emissora de TV sul-coreana, chegando a vender 600 marmitas por dia. Foi necessário abrir uma fábrica de quentinhas exclusivamente para atender esse público.

Com o fim das Olimpíadas, o  público diminuiu e o restaurante, que fica em uma galeria na Barra da Tijuca, fez uma pausa. Atualmente o estabelecimento funciona de quinta à domingo, quando tem uma frequência de público mais consistente.

Sr. Kim conta que inicialmente a maioria dos frequentadores era de fato formada por fãs de K-Pop, mas atualmente se tornou uma opção para um público mais diverso, até mesmo pela localização do estabelecimento, que fica ao lado de um cinema.

No mesmo andar e à poucas lojas de distância do restaurante funciona a Escola de Coreano, também idealizada por Sr. Kim. Inaugurado em janeiro de 2017, o curso foi criado após uma pesquisa interesse, especialmente entre os K-Poppers, considerando o crescimento mundial da onda Hallyu e o interesse para além cultura pop, que vem sendo despertado neste público. Desde então, a Escola de Coreano já abriu uma filial em Nova Iguaçu e tem previsão para inauguração de duas novas unidades em 2019.

Iniciativas como o Clube Coreia UFRJ – que busca difundir o ensino do coreano dentro da universidade – e a implementação do idioma na oferta de cursos tradicionais, vem contribuindo para a difusão do ensino de coreano nos últimos anos, mas o pioneiro neste campo teve seu início muitos anos antes da onda Hallyu tomar conta do Brasil e do mundo. O Instituto Nam Ho Lee (INHL) foi o primeiro curso de coreano do Rio de Janeiro, sendo iniciado na década de 80. Dona Lee, como é conhecida pelos alunos, é uma das idealizadoras do INHL e contou que seu marido deu início às aulas com o intuito de aprimorar nos mestres de Taekwondo a pronúncia de práticas da arte marcial. E foi apenas com o crescimento do K-Pop que o curso atingiu o nível atual, com uma média de 150 alunos. As aulas acontecem aos sábados e entre o intervalo de turmas, o instituto funciona também como restaurante. A oferta por lá funciona de forma diferente do Hanguk House: durante a semana, em um grupo do Facebook são disponibilizadas opções de pratos e o mais votado pelos participantes se torna o prato do dia.

© 2018 - Por Beatriz Filippo. Criado com Wix.com e Maria Cecília
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